Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

tucano



Domingo, 02.06.13

A ORTOGRAFIA

 

 

 

 

Por qualquer razão que agora me escapa, um dia destes voltei a lembrar-me da notícia da inauguração da sede da Fundação José Saramago. Pensando melhor, talvez o assalto desta lembrança esteja relacionado com alguns problemas de má consciência por ainda não ter encontrado tempo para a visitar. Foi uma jovem jornalista que, no noticiário da manhã de um dos canais da TV, me deu a notícia. Nada de mais. Era uma boa notícia,  já esperada há algum tempo. Na altura, o que estranhei foi o facto de a jornalista se ter referido a Pilar del Rio como “presidenta” da instituição.

Eu sei que noutras paragens, nomeadamente na América do Sul, onde num curto espaço de tempo três mulheres ascenderam à presidência da república, o assunto foi objecto de acesa controvérsia. Embora Michelle Bachelet aparentemente não tivesse tomado uma posição oficial sobre o assunto, a verdade é que tanto Cristina Kirchner como Dilma Rousseff exigiram serem tratadas oficialmente por “presidenta”.

Todavia, tanto no Brasil como em Portugal o termo preferido é presidente, sendo presidenta usado de forma pejorativa ou informal (Dicionário Houaiss). Margarida Correia, presidente do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) recorda que “de acordo com a norma culta do Português, deve dizer-se presidente”. E diz mais: -  “segundo a gramática, as palavras acabadas em «nte» são invariáveis”. Nada de novo. Já durante Instrução Primária a minha saudosa professora, a inesquecível D. Laura Guerreiro Romano, que me exigia saber na ponta da língua as regras básicas da gramática, me ensinara a natureza dos substantivos comuns de dois, dos sobrecomuns  e dos  epicenos (há quanto tempo eu não pronunciava esta palavra !), sendo que  alguns figuram  no léxico corrente como herdeiros do velho particípio presente, entretanto aposentado.  Presidente é um dos múltiplos exemplos. António Morais da Silva (Grande Dicionário da Língua Portuguesa) cita a opinião de Mário Barreto (Novos Estudos) – “Dissentimos a que uma senhora se lhe chame “presidenta”. Vários escritores utilizaram esta forma, mas sempre com uma conotação depreciativa e irónica. Talvez o caso mais conhecido seja o da comédia de Molière “Des Femmes Savantes” que António Feliciano de Castilho, em tradução libérrima (o adjectivo é do próprio),  deu o título  - “As Sabichonas”.  Já o título escolhido por Castilho é suficientemente  elucidativo para , sem surpresas, ficarmos saber de antemão ao que vamos. Sabichona é , também ele,  um termo de natureza depreciativa. Esta designação aplica-se a mulher que presume de muita sabedoria e que, objectivamente, se pretende  ridicularizar. Morais (op cit), cita Afrânio Peixoto (Ensinar a Ensinar) – “a cultura  desorientada e presumida que as torna (as mulheres) pedantes e sabichonas…”  Não só no título, mas também no texto, Castilho carregou demasiado nas tintas no ataque às “sabichonas”,  bem mais do que Molière certamente pretendia, exibindo assim uma curiosa faceta marialva, até um pouco já fora de moda  mesmo para o século XIX. Acho curioso que Castilho  tivesse tido o cuidado de mandar imprimir um aviso aos leitores, que não resisto a transcrever. É assim - “Adverte desde já o tradutor de Des Femmes Savantes, para obviar a alguns reparos descabidos e censuras escusadas, que a sua intenção, neste ligeiro passatempo, não foi verdadeiramente a que o título pareceria indicar”. A crítica provavelmente não leu o aviso… Na peça, a  palavra presidenta aparece num diálogo que ressumbra erudição por todos os poros, entre dois tolos. Um poetastro de má sorte e uma dama (“senhora de porte, presunção e génio imperioso” , segundo a recomendação didascálica) que encarna  aqui o papel da principal sabichona. O vate, melífluo, dirige-se-lhe nestes termos: - “Mais gratidão lhe devo, imortal presidenta”. Pegando na deixa, a dama, granítica militante da pureza linguística, de cátedra, começa a sentenciar. Para evitar mal entendidos, propõe que a palavra barra, que tem tantos significados, aliás objecto frequente de aborrecidas confusões, passe a ser escrita com 2, 3, 4, 5 e 6 “erres”, consoante  é de água, de pau, de ouro, fazenda ou ferro. Na fala seguinte, o interlocutor não lhe fica atrás – “Acho lógico, assim como a clareza ordena pôr numa pena um “ene”, e dois na outra penna” .

Desorientação parece a palavra ajustada para aquela senhora que tendo sido amiga muito próxima de Natália Correia, a acompanhava no declarado desamor pela palavra poetisa, preferindo o poeta, não importando o sexo do rimador (“senhores jurados, sou um poeta/…/ sou um poeta, jogo-ma aos dados”). Para surpresa minha, ouvi-a há tempos defender a presidenta …Para compor o ramalhete e equilibrar a balança em termos de tolice, só nos faltava agora que o presidente viesse reivindicar o tratamento de presidento.

 Pilar del Rio  (que eu poderia citar como Pilar do Rio, fazendo uso do mesmo desembaraço e facilidade de expressão com que ela se refere à “Casa de los Bicos”), não fala Português (ou faz gala em não falar, não sei bem), insiste em que lhe chamem “presidenta” da Fundação José Saramago. No documentário “José e Pilar”, a referida senhora mostra-se mesmo indignada com quem insiste em não reconhecer a palavra “presidenta” como Português correcto. A meu ver, a prudência e um pouco de bom senso aconselhariam, independentemente da sua opinião acerca da bondade do vocábulo,  a furtar-se à pretensão de querer ensinar aos portugueses o que é ou não é correcto nos nossos dizeres.

Finalmente, gostaria de deixar aqui expresso que tenho suficiente consideração, e até admiração,  pela mulher de Saramago, para a não querer tratar por “presidenta”.

 

31-07-2012

Autoria e outros dados (tags, etc)

por tucano às 16:06


1 comentário

De Anónimo a 09.06.2019 às 19:14

Fui enviado para este blog a partir de um post no grupo "Portugueses e lusófonos contra o acordo ortográfico" (https://www.facebook.com/groups/portugueses.e.lusofonos/357187338270648/), grupo esse que abandonei. Ora considero altamente injusto que tal grupo continue a aceitar posts de outros membros escritos contra mim, sem que eu me possa reinscrever e ter assim o direito de resposta.
Estou pois dependente de alguém responsável desse grupo veja este comentário e tenha algum sentido de justiça... Por exemplo o administrador do grupo...

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Junho 2013

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30

Posts mais comentados