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Tempos houve, em que beliscar figuras públicas e poderosas, vivas ou mortas, poderia dar aso a reacções pouco amistosas da parte dos herdeiros, muito ciosos da sua “honra” da família, e pouco complacentes com comentários que, mesmo vagamente, pudessem vir a ser interpretados como tentativa de desluzimento das suas ínclitas gerações. Damião de Goes, pela simples suspeita de ter escrito (não escreveu) umas sátiras em que se diziam coisas horrorosas, tais como:
Mestre João sacerdote
De Barcelos natural
Houve duma moura tal
Um filho de boa sorte
Pedro Esteves se chamou
Honradamente vivia
Deste (pois nada se esconde)
Nasceu Maria Pinheira
Mãe da mãe daquele conde
Que é conde da Castanheira
foi, segundo afirma Camilo Castelo Branco, vítima da desforra do filho do dito conde, pela alegada maledicência heráldica. O 2º conde de Castanheira terá mandado “criados seus moerem com sacos de areia o ancião no pátio da sua mesma casa”, e que o cronista “apenas teve forças que o arrastassem à cama, onde se desprendeu da vida, e mormente da língua, que tantos trabalhos lhe custara”. Sublinhe-se aqui a fina sensibilidade com que o festejado romancista se refere ao “acto de justiça” que vitimou o autor da “CHRONICA D’ELREY D. MANOEL”, Guarda-Mor da Torre do Tombo, intelectual com verdadeiro prestígio europeu, íntimo de Erasmo, vítima de um processo absurdo no tribunal do Santo Ofício, que por pouco não acabou na fogueira. Lembro que Camilo inicia este texto sobre Damião de Goes com uma curta mas sugestiva frase: - “Não era boa pessoa” e mais à frente acrescenta: - “alem de desluzir as gerações dos seus inimigos, era deslinguado”. Quem é que vai duvidar da idoneidade de Camilo para avaliar do grau de bondade de quem quer que fosse, ele que nesta matéria dava cartas? Basta recordar a malograda Fanny Owen e a forma como Camilo contribuiu para o dramático desfecho que se conhece. Melhor sorte não teve Francisco de Moraes, contemporâneo de Goes, autor do “Palmeirim de Inglaterra”, e provavelmente o verdadeiro autor das referidas “satyras” que tanto incomodaram os Castanheiras. Tanto assim, que acabou assassinado em Évora por partidários do duque de Bragança, “a ferro”, no ano de 1572 (curiosamente o mesmo em que Goes foi encarcerado pela Inquisição). A razão para este ajuste de contas teria sido a publicação de uma sátira, onde se falava do Barbadão e da origem da casa de Bragança. O Barbadão era um humilde plebeu, pai de Inês Pires, de quem D: João I teve um filho bastardo, D. Afonso, que viria a ser o primeiro duque de Bragança. Camilo comenta que nem o exemplo do sucedido com Damião de Gois, impediu que Francisco de Moraes, “se atirasse estouvadamente no precipício”.
Mas isso era naqueles velhos e bárbaros tempos, em que duques e condes podiam, impunemente, fazer “justiça” sumária por suas próprias mãos. Hoje vivemos em democracia, a Imprensa é livre (ou quase), e cada um diz o que muito bem entende, e depois é uma questão de gosto e paciência. Vejam lá que eu tenho amigos que acham imensíssima piada às traquinices do senhor Valente. Alguns estão mesmo crentes de que aquilo é uma espécie de “Inimigo Público 2”. Eu inclino-me mais para uma forma ostentativa e gratuita de misantropia (Pedro Mexia, no “Governo Sombra”, falou em ódio à humanidade) . Por isso, pode o senhor Valente chamar “velho meio senil e pouco esperto” a Manuel Arriaga, dizer que António José de Almeida era um “demagogo de feira”, Manuel Teixeira Gomes, “pedófilo”, e que “o 28 de Maio livrou em definitivo a pátria” de Bernardino Machado, sem que isso lhe traga quaisquer dissabores. Não estou a ver que o meu querido amigo e colega Manuel Sá Marques, não obstante o natural afecto e a conhecida admiração que nutre pela memória do seu avô Bernardino, dê a mínima importância a estas pasquinadas de mau gosto. O senhor Valente está no seu direito de escrever os destemperos que entender e adjectivar à sua vontade. O que o senhor Valente não deve, é abordar a História de forma tão displicente e desastrada como o fez na crónica em causa. Tivesse eu dito, no exame da 4ª classe, que “Bernardino Machado substituiu Arriaga”, e lá se ia o “aprovado com distinção” que tanto afagou o meu ego, aos 11 anos de idade.
António Iria Revez
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